Operação Trapaça e briga de sócios geram dúvida sobre saúde financeira da BRF

Agência rebaixa gigante dos alimentos após ação da PF e escalada de conflito pelo comando

RAQUEL LANDIM

Folha de São Paulo

As investigações da Operação Trapaça e a briga entre os sócios pelo comando da BRF estão semeando dúvidas no mercado sobre a saúde financeira da gigante de alimentos.

A companhia, formada pela fusão de Sadia e Perdigão, tem caixa para absorver o primeiro impacto da turbulência, mas a situação inspira cautela, porque a dívida está muito alta.

Nesta terça-feira (6), a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou os papéis da companhia em razão da “piora nas métricas de crédito” e por “apostar que a recuperação vai ser mais lenta que o esperado”.

Com as margens de lucro em queda e os custos em alta, a alavancagem financeira (indicador de endividamento) da BRF subiu de 4,6 vezes em 2016 para 5,6 vezes em 2017. A expectativa é de melhora em 2018 e 2019, mas depende do desenrolar dos acontecimentos.

“As investigações e as discussões entre os acionistas, possivelmente com a troca do conselho e da administração, vão ser uma distração num momento em que o foco deveria ser a execução”, informa a Moody’s em comunicado.

Segundo pessoas próximas à empresa, a BRF possui R$ 10 bilhões disponíveis: R$ 7 bilhões em caixa e R$ 3 bilhões de uma linha de crédito pré-aprovada com um sindicato de bancos para emergências.

Os recursos seriam suficientes para cobrir os compromissos de curto prazo, que somam R$ 4,5 bilhões neste ano e R$ 4 bilhões em 2019. A dívida bruta total está em mais de R$ 20 bilhões.

A aposta, no entanto, é que não será necessário utilizar o “cheque especial”, porque a empresa deve continuar gerando caixa. A situação só sairia de controle se muitos países interrompessem as importações, em consequência das investigações da PF sobre fraudes para esconder contaminação de produtos.

Até agora, no entanto, o governo federal paralisou apenas os embarques das três unidades da empresa envolvidas no caso. Segundo a Moody’s, o bloqueio afeta menos de 1% das exportações da BRF.

A turbulência, no entanto, deixou o mercado nervoso, principalmente em razão da prisão do ex-presidente Pedro Faria. Desde que as investigações vieram a público, na segunda (5), os bancos estão ligando para a BRF para questionar sua capacidade de pagamento das dívidas.

Os executivos da empresa vêm tentando tranquilizar os credores. Dos R$ 4,5 bilhões que vencem neste ano, cerca de R$ 2,5 bilhões são crédito rural e adiantamentos de contratos de câmbio atrelados à exportação –linhas de crédito que têm garantia real e que os bancos se sentem mais seguros para rolar.

Outros R$ 2 bilhões correspondem a duas operações no mercado de capitais que vencem no segundo e no terceiro trimestre deste ano. Antes da crise, o plano da BRF era fazer novas emissões de títulos para rolar essa dívida.

Com as incertezas geradas pelas investigações da PF, vai ficar mais difícil para a empresa acessar o mercado externo. É provável que a BRF tenha de utilizar parte do seu caixa para pagar essa dívida.

Procurada, a BRF não se pronunciou.

DISPUTA

Terceira fase das investigações da Carne Fraca, a Operação Trapaça eclodiu no mesmo dia em que o conselho da BRF tinha uma reunião marcada para discutir o futuro da empresa.

Os fundos de pensão Petros e Previ estão insatisfeitos com a gestão de Abilio Diniz à frente do conselho e propuseram uma nova chapa para trocar praticamente todo o colegiado.

O assunto, no entanto, ainda vai demorar 40 dias para se resolver. A assembleia de acionistas foi marcada para 26 de abril por sugestão do grupo de Abilio.

Segundo pessoas envolvidas, o empresário vinha tentando organizar uma chapa concorrente para o conselho, mas os prejuízos provocados pela Operação Trapaça complicaram seus planos. Hoje é improvável que ele consiga se manter no comando. Abilio ainda não se pronunciou sobre as investigações.