Alta do dólar faz BC manter taxa básica de juros

Na avaliação de analistas, autoridade monetária teme efeitos do câmbio sobre a inflação e os investimentos

17.mai.2018 às 2h00

Maeli Prado Flavia Lima

Folha de São Paulo

O BC (Banco Central) reagiu à alta do dólar. Por unanimidade, manteve os juros básicos da economia em 6,5% ao ano, ao mesmo tempo em que sinalizou o fim do ciclo de cortes no juro iniciado em outubro de 2016.

O Copom (Comitê de Política Monetária do BC) considerou que a recente turbulência no mercado internacional, com alta de juros nos EUA e tendência de valorização do dólar, tornou desnecessário um corte adicional nos juros, que estão no patamar mais baixo da história.

A evolução do cenário básico e, principalmente, do balanço de riscos tornou desnecessária uma flexibilização monetária adicional”, disse o BC em comunicado.

No texto, o BC ainda disse que o comitê deve manter a Selic nas próximas reuniões.

A decisão surpreendeu o mercado: foi prevista por apenas um dos 38 economistas e casas ouvidos pela agência de notícias Bloomberg — John Welch, do HSBC. Para os outros 37, o BC cortaria em 0,25 ponto percentual.

Foi uma decisão tomada exclusivamente por causa da mudança no cenário externo”, disse José Francisco Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, para quem a decisão é justificável. “Como é possível que a alta do dólar gere inflação, cabe a cautela.”

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, concorda. Ele avalia que a decisão foi um sinal de alerta do BC em relação aos fatores que podem pressionar a inflação daqui até o fim do ano.
Para ele, isso pode significar algo até então fora do cenário: uma alta dos juros antes do imaginado se a taxa de câmbio não se acomodar logo.

Os alimentos vão subir mais, especialmente carnes, que devem puxar bastante. E a desvalorização cambial tende a se intensificar com as eleições mais próximas”, diz.

A comunicação do BC, no entanto, foi alvo de críticas de parte dos economistas.

Juan Jensen, sócio da 4E consultoria, diz que a comunicação do BC foi ruim. Segundo ele, o Banco Central teve vários momentos para sinalizar a intenção de interromper o ciclo de baixa e não o fez em nenhum.

Ilan foi à TV há cerca de uma semana e deu sinais de que os juros cairiam. Claramente houve um problema de comunicação”, disse, em referência à entrevista concedida à GloboNews.

Para ele, uma taxa Selic 0,25 ponto percentual mais baixa não faria muita diferença, especialmente porque o mercado de crédito está travado.

O canal de transmissão de uma Selic mais baixa via mercado de crédito está entupido e só deve melhorar quando os bancos tiveram maior clareza sobre o cenário eleitoral”, diz ele. Um candidato mais afeito às reformas, afirmou, abriria espaço para juros menores por um prazo mais longo, baixando a guarda dos bancos.

Menos otimista do que a média, Jensen mantém, desde meados do ano passado, a previsão de alta de apenas 1,9% para o PIB em 2018.

Com uma leitura diferente, Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX Investimentos, diz que o BC ganha credibilidade com a decisão, abrindo espaço para um real menos pressionado. 

A comunicação não foi ruim. Eles deixaram claro que só reduziriam mais 0,25 ponto porque achavam que havia risco da inflação ficar muito abaixo da meta”, diz ela. “Hoje esse risco é menor”, avalia.

Para o economista-chefe do banco Santander, Maurício Molon, o mercado estava inquieto com a possibilidade de o Banco Central baixar ainda mais a taxa Selic, estreitando o diferencial de juros entre o Brasil e os EUA—algo que poderia pressionar ainda mais o câmbio.

A diferença de juros pesa na decisão de investimentos. Os juros afetam o preço de títulos públicos —são maiores em países mais arriscados e menores em países mais seguros.

A diferença de juros entre Brasil (hoje mais arriscado) e EUA (mais seguro) estava se estreitando. A leitura dos especialistas é que isso em algum momento deixaria o mercado local menos atraente para os investidores.

Fora do radar da pesquisa da Bloomberg, Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, era um dos poucos que esperava manutenção dos juros. Para ele, altas dos preços agrícolas no atacado, dos combustíveis e do dólar impedia um novo corte. “O presidente do Banco Central disse há dez dias que os juros iam cair. Errou feio”, diz.