União possui participação em 224 companhias, sendo que grande parte está concentrada no setor de energia elétrica

Por Rafael de Souza Ribeiro

31 out, 2018

SÃO PAULO – Com a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) confirmada sobre Fernando Haddad (PT), os investidores aguardam pela execução da agenda de reformas prometida pelo novo presidente para os próximos 4 anos, em especial pelo plano de privatização.

De olho nisso, os estrategistas do Itaú BBA, liderados por Luiz Cherman e Lucas Tambellini, divulgaram estudo apontando as empresas que o governo possui participação direta ou indiretamente — via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ou estatais –, oferecendo ao investidor um panorama completo dos ativos possui participação.

Segundo o levantamento, das 224 companhias que a União detém participação, a maioria está concentrada no setor de energia elétrica, com 82 empresas, seguido pelo setor de óleo e gás (30) e financeiro (25). Deste total, 117 empresas o governo possui participação indireta, sendo que em 65 delas a União atua via o banco de fomento.

Além disso, o estudo mostra que o governo possui participação em 38 empresas que estão listadas em Bolsa, que, somadas a participação da União, configuram em um valor de mercado de R$ 330 bilhões, segundo os cálculos do Itaú BBA. Confira abaixo a relação completa:

Empresa

Participação do Governo (%)

Valor de mercado (R$ bi)

Veículo de Participação

Telebras

87,3%

1,4

Governo

Eletrobras

59,7%

31,8

Governo e BNDES 

Banco do Brasil

50,7%

116,3

Governo

Petrobras

43,9%

366,4

Governo e BNDES

Marfrig

33,7%

3,92

BNDES

BB Seguridade

33,7%

52,4

Banco do Brasil

AES Tietê

33%

4,1

BNDES + Eletrobras

BR Distribuidora

31,3%

26,7

Petrobras

Fibria

29,1%

39,9

BNDES

Tupy

28,2%

2,6

BNDES

Copel

24,3%

6,7

BNDES + Eletrobras

JBS

21,3%

27,2

BNDES

CTEEP

21,1%

10,1

Eletrobras

Braskem

15,9%

39,9

Petrobras

Ouro Fino

12,3%

1,4

BNDES

Vale

7,6%

293,7

BNDES

Suzano

6,9%

44,2

BNDES

Linx

5,8%

4,1

BNDES

Cemig

5,5%

16,8

BNDES

Embraer

5,4%

14,4

BNDES

Klabin

5,2%

23,6

BNDES

Triunfo

5,1%

0,35

BNDES

Oi

4,6%

5,8

BNDES

Totvs

4,5%

4,2

BNDES

Copasa

3,5%

6,8

BNDES

Ecorodovias

2,4%

4,9

BNDES

Iochpe-Maxion

2,3%

2,9

BNDES

Energisa

1,9%

13,2

Eletrobras e BNDES

MRV

1,6%

5,3

BNDES

Gerdau

1,5%

24,8

BNDES

Cyrela

1,3%

5,5

BNDES

Cesp

1,2%

6,0

Eletrobras

Engie Brasil

1,0%

25,0

BNDES

CSN

0,6%

12,9

BNDES

Kepler Weber

0,5%

0,29

BNDES

Tim

0,2%

25,6

BNDES

Metalúrgica Gerdau

0,1%

7,4

BNDES

BR Malls

0,1%

10,3

BNDES

Fonte: Itaú BBA

Alvos da privatização

Ao longo de sua campanha, Bolsonaro afirmou que é possível privatizar mais de 100 estatais “tranquilamente”, como o caso da EPL (Empresa de Planejamento e Logística), conhecida como a “Estatal do Trem-Bala” e que só onera o Estado, mas sempre negou que irá privatizar estatais consideradas estratégicas.

“É o que eu tenho falado, que as estatais estratégicas não serão privatizadas. Tudo terá um critério ou um modelo, não vamos sair vendendo tudo. Quem é funcionário da Caixa, do Banco do Brasil, do setor elétrico, do setor energético, pode ficar tranquilo”, afirmou em entrevista nas vésperas da eleição do segundo turno. Contudo, seu guru econômico e futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, tem um pensamento mais liberal.

Em sabatina ao GloboNews no final de agosto, Guedes afirmou que é favorável à privatização de todas estatais para reduzir o endividamento público, mas sabe da resistência de Bolsonaro ao plano: “é muito interessante isso porque o Bolsonaro era associado ao seguinte: ‘não será vendida nenhuma’. Agora vai ter um resultante interessante, porque para mim são todas. Então, se não tem nenhuma e tem todas, deve ter algo aí no meio”, afirmou o economista e justamente isso que o mercado vem precificando.

Com alta de 50% somente em outubro, as ações da Eletrobras (ELET3 +5,76%) foram um dos veículos para surfar a onda de privatização prometida pelo novo governo com viés liberal. Outras estatais, como Petrobras (PETR4 +5,98%) e Banco do Brasil (BBAS3 +2,94%), que dispararam 33% e 46%, respectivamente, também foram beneficiadas, mas pela expectativa por uma gestão mais eficiente nos próximos 4 anos.

O risco-BNDES

Com participação em 27 das 38 empresas listadas em Bolsa, o BNDES é um dos principais braços do governo nas companhias de capital aberto e sua atuação deve estar na mira dos investidores, já que uma eventual venda de ações pode gerar ruído no mercado.   

“Não faz sentido o BNDES ter participação em empresas já desenvolvidas e listadas em Bolsa. Assim, poderemos ver uma grande limpa no balanço neste novo governo”, afirmou um gestor que pediu anonimato ao InfoMoney. Nesse sentido, um movimento de venda pelo banco de fomento, mesmo que seja ordenada — como geralmente é –, podem pressionar os papéis, destaca o gestor.

Segundo o estudo, a maior participação do BNDES nas empresas listadas em Bolsa está concentrada na Marfrig, com 33,7% do frigorífico, seguida por Fibria (29,1%), Tupy (28,2%) e JBS (21,3%), todas com percentual superior de 20%. Obviamente, o investidor não deve sair vendendo suas ações simplesmente pela participação do BNDES, mas vale ficar ligado no potencial impacto de uma venda no mercado.

Em maio de 2016, quando Maria Silvio Bastos Marques assumiu o BNDES e gerou temor sobre uma onda de venda de participações pelo banco, o BTG Pactual elaborou relatório apontando os impactos em termos de trading de uma possível desova pelo banco de fomento.

Assim como naquela época, os nomes mais expostos ainda são Fibria, JBS e Tupy. Olhando para alguns casos, como da empresa do setor de papel e celulose, a pressão de venda pelo BNDES (participação do banco na empresa em relação ao volume negociado na Bolsa) representaria 97 dias úteis de negociação para que a União saísse do papel. Ou seja, a pressão de venda pode ser enorme, ainda mais em empresas com menor liquidez, onde o “buraco da agulha” é menor.