Analistas do mercado financeiro consideram aceitável se, após modificações, economia com à reforma das aposentadorias ficar em torno de R$ 700 bilhões

Por Simone Kafruni – CORREIO BRAZILIENSE

25/02/2019

A equipe econômica do governo promete uma economia de quase R$ 1,2 trilhão em 10 anos se a proposta da nova Previdência for aprovada este ano. Como precisa passar pelo Congresso, deve ser desidratada, a exemplo do que ocorreu com o projeto enviado pelo governo de Michel Temer, que chegou ao Legislativo com previsão de economizar R$ 800 bilhões, montante que, depois de todos os trâmites e crises políticas, encolheu para R$ 450 bilhões. O mercado, no entanto, já precificou a desidratação e considera aceitável se, em uma década, o ajuste atingir 60% da promessa de governo, em torno de R$ 700 bilhões.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, já deixou claro que, na avaliação dele, uma economia abaixo de R$ 1 trilhão é inaceitável. As instituições internacionais são bem mais pessimistas e calculam uma redução drástica. Para a consultoria de risco político Eurásia, o impacto fiscal da reforma da Previdência deve cair para algo entre R$ 400 bilhões e R$ 600 bilhões após as negociações no Congresso.

A estimativa do Citibank, que leva em conta o que ocorreu com a reforma proposta por Temer, é de uma contenção de R$ 500 bilhões nos próximos 10 anos. A agência de classificação de risco Standard & Poor’s assume um ajuste gradual, convergente com ganho fiscal do substitutivo, ou seja, algo entre R$ 450 bilhões e R$ 600 bilhões no período.

Os economistas brasileiros são mais otimistas e elevam a média das 10 instituições consideradas pelo Correio. A economista e sócia da Tendências Consultoria Alessandra Ribeiro projeta R$ 800 bilhões. O analista da mesma instituição Fabio Klein pontua que a proposta é bastante forte. “Se chegar a 60% ou 70% do R$ 1,2 trilhão, já será uma boa economia”, afirma.

Álvaro Bandeira, economista-chefe do banco digital Modalmais, explica que o país ainda terá muita volatilidade por conta das marchas e contramarchas da reforma da Previdência em sua tramitação em comissões e no Congresso. “Há um certo temor de que possa sofrer desidratação e descaracterização por

parlamentares, mas nossa avaliação é que o projeto ficou bem amarrado. Se houver economia fiscal da ordem de R$ 700 bilhões a R$ 800 bilhões em 10 anos, já estará bom. Que dirá se conseguir atingir a previsão de Paulo Guedes, de R$ 1,16 trilhão”, assinala.

Para tanto, segundo Bandeira, será preciso formatar melhor a base de apoio do governo nos meses de discussão para conseguir aprovar uma nova Previdência razoável. “Nesse aspecto, o governo de Bolsonaro deve deixar de ser beligerante, pregar a união do parlamento e motivar a sociedade para o sacrifício que estará sendo imposto, mas que é absolutamente necessário”, diz.

Nesse contexto, o economista diz que permanece otimista com o desenvolvimento dos mercados de risco, com muita volatilidade de curto prazo, mas com tendência de alta dos ativos.

Euforia

No entender de Luís Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, se chegar a R$ 850 bilhões, vai haver uma euforia no mercado, com impacto na valorização dos ativos e do real frente ao dólar. “É possível que tenha desidratação. Entre R$ 450 bilhões e R$ 650 bilhões, o efeito será neutro no mercado, mas melhor do que uma não aprovação. Só que nesse patamar, o governo estaria apenas empurrando o problema com a barriga”, destaca.

Leal acredita que vários pontos sofrerão resistência. “A mudança no BPC (Benefício de Prestação Continuada) vai ser difícil de ser aprovada. Vão trazer o salário mínimo de volta. A regra de transição do setor público está muito forte, vai ter algum alívio ali. E pode haver alguma discussão sobre as alíquotas do RPPS (Regime Próprio de Previdência Social que rege as regras dos servidores)”, enumera. Outra coisa que será muito debatida, segundo ele, é a replicação direta para estados e municípios. “Se for aprovada para um, vai valer para todos. A grande discussão era apoio. Mas está começando a ter reviravolta. Deputados federais podem não querer incorrer no ônus de aprovar uma medida impopular que seria de responsabilidade dos estaduais.”

Na opinião do economista chefe da DMI Group, Daniel Xavier, o Congresso já está se manifestando no sentido de desidratar a proposta. “Servidores públicos estão criticando. Quem defende causas sociais também, por conta do BPC. O mercado está embutindo isso nos preços, mas a descaracterização acima de 25% deve gerar reprecificação, no sentido de que a reforma pode não surtir o efeito de ajuste fiscal esperado”, avalia.

Xavier alerta que a proposta de Temer caiu de R$ 800 bilhões para R$ 600 bilhões, redução de 25%, em um primeiro momento. “Depois do grampo telefônico e após a crise política, voltou para ser votada com economia R$ 476 bilhões. Então, temos que ficar atentos aos fatos políticos, que tendem a enfraquecer a proposta”, emenda. Pedro Paulo Silveira, economista da corretora Nova Futura corretora, considera o processo de negociação natural. “Há muitos interesses, mas, se o ajuste fechar em 70%, já estará bom”, assinala.

Alguns analistas consideram difícil avaliar o que pode ou não passar. Patricia Pereira, especialista da Mongeral Aegon Investimentos, ressalta que a margem mais segura é fazer um cruzamento do que se tem hoje com a proposta de Temer. “Porém, o Congresso está mais complexo, com muita renovação. Agora, Temer tinha uma impopularidade muito forte e a reforma foi apresentada em dezembro, só voltou em fevereiro e, quando voltou, já começou a ser desidratada”, lembra.

O presidente Jair Bolsonaro, ao contrário, tem popularidade, de acordo com Patricia. “A equipe econômica chama de Nova Previdência porque a reforma ficou uma coisa ruim. Há um alívio para os mais pobres e aumento para quem ganha mais. Os argumentos são bons”, aposta. Na comparação com a proposta anterior, Patricia lembra que a descaracterização reduziu a economia em 40%. “Se tiver o mesmo nível de desidratação, ficará em R$ 700 bilhões, o que é muito bom, próximo do número cheio de Temer”, calcula.

Bruno Lavieri, economista da 4E Consultoria, também considera difícil definir o que é aceitável para o mercado. “Se a reforma for muito diluída, a frustração vai se refletir nos preços dos ativos, por mais que a proposta seja muito bem feita qualitativamente. Servidores públicos, por exemplo, têm poder de barganha grande e o RPPS deve sofrer resistência”, destaca. Do lado do regime geral, Lavieri pondera que o governo conseguiu emplacar redução de alíquota e uma tentativa de distribuição de renda. “Vai ser difícil argumentar contra, porque não pune os mais pobres”, resume.

A economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, prevê que o mercado gostaria de algo acima de R$ 700 bilhões. “Com isso, os preços de ativos melhoram. Abaixo de R$ 500 bilhões, seria visto como insuficiente. Entre R$ 500 bilhões e R$ 700 bilhões, é uma zona que depende muito do humor externo, ficaria mais neutro”, estima.