Por Sidnei Nehme

O alarido em torno do arroz foi muito pontual porque apontou para um produto que, além do preço, revelou risco de desabastecimento, o que levou o governo a adotar medidas focando a importação.

Mas, este é um fato e risco que está atingindo de forma contundente toda a cadeia de produtos agrícolas e pecuários exportáveis, como consequência da forte demanda do mercado externo e da distorção de preço provocada pelo “câmbio alto” fora do ponto, que assim, repercute os preços externos convertidos para o mercado interno e impactam forte no processo inflacionário brasileiro.

Este fato está entrando no auge e se torna perceptível com o agravamento dos reajustes dos produtos, em especial, da cesta básica e torna presente também o risco de desabastecimento devido ao país não ter um política de estoques mínimos reguladores, fundamental para quem se intitula e é “celeiro do mundo”.

E esta é uma ocorrência inevitável, pois não se espera de parte do governo medidas de contingenciamentos de exportações, e, ações de contenção de altas de preços na ponta distribuidora poderão provocar o agravamento com desabastecimento e maior encarecimento.

O agravante é que o IBGE não capta e imputa esta realidade ao IPCA. Um leitor de nossos posts salientou que: “ ocorreu mudança metodológica na mensuração da inflação pelo IBGE e incluíram método econométrico de elasticidade de substituição automática para além do cálculo da cesta de consumo. Simplificando, temos o índice reduzido à médias geométricas em que os preços que sobem mais tem seu peso automaticamente diminuído e os preços que sobem menos ou descem tem seu peso incrementado independente da pesquisa original das proporções dos produtos consumidos na cesta de consumo pesquisada e vigente. Não é a inflação que é demasiada baixa é a mensuração que embute um viés de baixa.

Se procedente este é um detalhe preocupante visto que o IGP-M capta a inflação em sua grandiosidade e aponta para 15% este ano e o IPCA aponta para 2% ou pouco mais e este é um fator de redução de renda e capacidade de consumo da população visto que salários são reajustados pelo IPCA e serviços e contratos pelo IGP-M.

A realidade é que o “novo novo” no Brasil sugere que são necessários ajustes e que o “câmbio alto” e “juro baixo” estão descompassados e precisam ser revistos, mas a dificuldade do governo agora é em “trocar o pneu com o carro andando” e isto tecnicamente é quase impossível.

O “câmbio alto” que é uma estratégia de programa de governo focando inúmeros objetivos, até o momento com baixo sucesso, já sobejamente expostos em posts anteriores, se revela um pouco acima do que seria o seu ponto de equilíbrio para o preço da moeda nacional versus o dólar americano, mesmo se considerando o risco fiscal do Brasil.

O preço atual tecnicamente poderia ser suportado sem perder a característica desejada pelo governo de criar atratividade ao país e estimular as exportações, etc. etc., no em torno de R$ 5,00 ou um pouco abaixo, pois o país não tem perspectiva de demanda legítima no mercado de câmbio a vista e tem reservas confortáveis e mercado de derivativos sofisticado e, desta vez, se a crise fiscal se agravar o câmbio não deverá ser o ponto mais acentuado de repercussão e esta parece ser a percepção do mercado global que mantém o nosso CDS já precificando este fato no entorno de 200 pontos.

Contudo, como o “câmbio alto” foi desenvolvido como uma ideia sem parâmetros e ao longo foi contaminado por fatores diversos acabou se estabilizando no intervalo de R$ 5,00 a R$ 5,50, sem que haja uma base fundamentalista clara e consistente, e agora o governo não tem como impulsionar a baixa que precisa de motivos de mercado para apreciar o real, ou seja, maior fluxo de ingresso de recursos externos no país.

Por outro lado, o noviciado do “juro baixo” não criou motivação na dimensão do anseio do governo e, a despeito da inflação baixa com as ressalvas já postas sobre metodologia, de investimentos crescentes pelo setor produtivo visando retomada da atividade econômica, tendo se prestado a repercutir favoravelmente nos custos de carregamento da Dívida Pública, que agora pode, até em razão deste fato, revelar alguma dificuldade de rolagem e ser o ponto mais afetado nas atuais circunstâncias pela crise fiscal, diferentemente do preço do dólar.

A conclusão mais óbvia é que há indícios consistentes de que o câmbio precisa estar num patamar mais baixo e o juro num patamar mais elevado para se ter um ambiente mais equânime com o quadro atual da economia brasileira.

Como já salientamos, enganam-se os que consideram que são os rentistas que desejam um juro maior pela “cultura” visto que podem deslocar suas aplicações para IGP-M, se considerarem desinteressante a Bovespa neste momento de economia com desempenho indefinido.

O ponto fundamental é que o juro um pouco acima do parâmetro atual poderia atrair os investidores estrangeiros em renda fixa, o que melhoraria o fluxo cambial e traria benefícios múltiplos como melhora da facilidade de rolagem da Dívida Pública e impacto efetivo e legítimo de apreciação no preço do real conduzindo-o ao preço mais equânime com a realidade brasileira.

Aumentar o juro iria contra as expectativas do mercado, mas seria efetivamente a forma do governo colocar “ordem na casa”, promovendo tecnicamente o ajuste do preço do dólar no nosso mercado e atenuando, com a apreciação do real, os impactos inflacionários relevantes que ocorrem no momento.

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